FESTEJO DE SANTO ANTÔNIO DO SARDINHA: UMA FESTA DE LIBERTAÇÃO

Santo Antônio do Sardinha no município de Lima Campos, 129 ANOS de festa e tradição,
(Reportagem Hidelbrando Soares, TV Ouro Vivo)

Teve inicio no dia 03 de novembro a grandiosa e alegre festa de Santo Antônio do Sandinha. Uma tradição que vem de longe, e que tem um importante significado. Veja: 

Santo Antônio dos Sardinhas, localizado no município de Lima Campos, distante 258 km de São Luís do Maranhão. A história da comunidade, segundo levantamentos de relatos orais, iniciou-se em meados do século XIX, e foi, sobretudo, realizado pelas famílias descendentes dos negros escravizados, num contexto de resistência escrava frente ao excludente regime colonial. O território de Santo Antônio passou a ser mantido sob controle do grupo desde o abandono das terras pelo antigo senhor em fins do século XIX, onde ali ainda era considerada uma antiga fazenda de arroz. 

Os grupos familiares que ocupam as terras de Santo Antônio possuem um modo bastante especifico de se relacionarem com a terra e demais recursos naturais existentes. Há pelo menos 128 anos realizam um festejo tradicional em honra ao santo padroeiro no âmbito de um território que é por eles designados como terra de preto, ou terra de dono, mantido sob seu controle desde o abandono pelo antigo senhor em fins do século XIX. 

A história antiga e velha de Santo Antônio dos Sardinhas é sempre relatada por todos em Santo Antônio, principalmente entre os mais velhos, dentre os quais destaca-se os relatos de seu Raimundo Luz, morador mais antigo de Santo Antônio dos Sardinhas, foi apontado como principal detentor da memória do grupo. De acordo com o seu depoimento, a história de Santo Antônio dos Sardinhas nos remete a existência das denominas fazendas, um conjunto de grandes propriedades agrícolas que eram comandadas pelos chamados portugueses. Sabe-se que o Maranhão foi marcado pelo processo de expansão de um sistema agroexportador cujo modo de produção estava baseado no tripé da grande propriedade, monocultura e trabalho escravos. Com a crise desse sistema – traduzida principalmente pela desvalorização destes estabelecimentos agrícolas - muitos proprietários não encontraram mais alternativas para manter seus empreendimentos agrícolas. Em muitos casos, a solução encontrada por parte daqueles, já enfraquecidos economicamente, foi a transferência, doação ou concessão de extensões de suas terras aos ex-escravos. 

E foi a partir da desagregação das grandes fazendas de algodão, que se consolidou o processo de ocupação das terras pelos ex-escravos e libertos, uma vez que estes se mantiveram nas terras face ao abandono dos antigos proprietários. A partir de então, passa a surgir uma constelação de pequenas unidades produtivas, autônomas e baseadas no trabalho familiar. É nesse contexto, que o povoado de Santo Antônio dos Sardinhas passa a ser tornar o núcleo social a partir do qual o território passa a ser gradativamente ocupado. 

Na memória oral, o ponto de transição que demarca o declínio da lavoura de algodão, seguido do fim do regime escravista, e como consequência o processo de construção de autonomia do grupo, é o ano de 1888, ano em que oficialmente se declara o fim da escravidão no Brasil. Após essa data, o branco vai embora, deixando a terra à toa. A partir deste momento, o preto se achou liberto:

“Ai nesse movimento o português foi embora, quando grito a Lei áurea em 1888; ai o Brasil não aceitou mais esses portugueses e franceses aqui na área, foram embora; mas pensando ele que voltava, e os que ficaram também pensavam que ele ainda ia voltar, aonde aconteceu esse bisavô meu que era o feitor do branco, Geraldo, quando o branco saia pra viajar pra Portugal, ele era responsável que ficava tomando de conta da fazenda (...). A terra ficou com o feitor, ficou à toa aí...”
A data de 1888 representa, portanto, um marco de grande significado no tempo histórico de Santo Antônio dos Sardinhas; além de explicitar as condições da passagem das terras para o controle efetivo do grupo – e sua posição de autonomia traduzida na expressão preto liberto – demarca também o início da contagem oficial de realização do tradicional festejo do Santo padroeiro. O festejo, nesse sentido, representa 129 anos de comemoração da liberdade dos pretos. Daí a importância que a festa representa para a comunidade. Os relatos orais apontam que o branco não fazia festa, apenas rezava, ou ainda que festa do branco era só com oração.

Um episódio mítico fazendo referência a liberdade do preto e ao sentido de comemorar essa nova condição é narrado por muitas pessoas em Santo Antônio: eles dizem que quando gritô a liberdade, preto brincou 03 dias e 03 noites tambor de crioula sem parar. Até então, os designados pretos só tinham a permissão de brincar tambor de crioula somente uma vez por ano. No entanto, depois que gritou a liberdade, passaram a realizar o festejo em honra de Santo Antônio e muitas brincadeiras de tambor. 

A devoção ao Santo padroeiro do lugar também está ligada a fundação de Santo Antônio dos Sardinhas. Muitos informantes relatam que o antigo senhor, Antônio Sardinha, por ser devoto de Santo Antônio, trouxe uma imagem sua de Portugal, e mandou construir uma igreja especialmente para abrigá-la. A Igreja foi construída de madeira e foi toda feita por um carpinteiro que, assim como os demais denominados pretos, também teria vindo de Sanganhã, localizado no município de Codó.

A igreja de Santo Antônio já passou por algumas reformas e atualmente não é mais de madeira, mas sim de alvenaria. No seu interior são guardados o que seu Raimundo luz denomina de coisa histórica, entendidas como insígnias da ocupação ancestral do seu território, como por exemplo: os castiçais de madeira, uma balança antiga, pesos, um sino, e uma grande pedra redonda usada no passado para moer mamona.

O possuidor neste caso é toda a comunidade de Santo Antônio. São um bem coletivo que também narram a história do grupo e como tal, são objetos insubstituíveis que escapam às contingências das interações socais. Mais do que um sentido estético ou de utilidade, tais objetos são símbolos que dão uma afirmação de identidade ao grupo.

Em Santo Antônio, os ex-escravos e seus descendentes são designados de pretos, e segundo a memória do grupo, após a abolição, estes permaneceram nas terras, cultivando, sobretudo o arroz e o feijão. É de Sanganhã que veio uma negra escrava chamada Flor, comprada pelo antigo senhor Sardinha, e que chega a data Santo Antônio trazendo seus filhos. Este fato demarca na memória oral - a partir das descendências dos pretos - o início do processo de ocupação da fazenda pelos denominados pretos, processo no âmbito do qual mais tarde viria a se constituir o território de Santo Antônio dos Sardinhas.

Interessante notar que todas essas classificações da terra fazem menção aos antepassados negros escravos, designados pelos seus pares, como pretos. Portanto, ao analisar os depoimentos, pude considerar que o designativo preto se referia tanto para o escravo que veio da África ou comprado em Sanganhã, quanto para os seus descendentes.

O carregamento e fixação do mastro, um dos pontos altos da festa.

Sincretismo - A fusão de diferentes cultos é presença muito forte na Festa. 

Padre Luis, pároco da Igreja de Lima Campos, diz que devemos respeitar a cultura e a tradição

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Referência: Quando gritô a liberdade: Identidade e território em Santo Antonio dos Sardinhas, Maria Tereza Nunes Trabulsi - Universidade Federal do Maranhão, 2014 (UFMA).
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