COM A PALAVRA, UM NEGRO!


Todas as vezes que se aproxima o dia 20 de novembro, data que se celebra em todo o Brasil, o Dia da Consciência Negra, é sempre motivo para polêmicas, discussões, agressões verbais, lamúrias e desrespeito às questões que estão ligadas a esse assunto. E, agora, com a “febre” das redes sociais, aí é que a “coisa” piorou ainda, pois a cada postagem de internautas desinformados e cheios de intolerância acerca das questões raciais, ou ainda, de alguns que se intitulam inteirados no assunto, percebo que a intransigência é pior ainda. Explico:

Antes de entrar nessa questão, gostaria de dizer que esse texto foi escrito por mim, um negro consciente, filho de negros, com ancestrais maternos indígenas, filho dessa terra dos índios Pedras Verdes e dos povos Quilombolas do povoado Lago da Onça, onde nasceu o poeta negro João do Vale, o Maranhense do Século. 

Mesmo sendo negro, não precisei de cotas para graduar-me em Farmácia-Bioquímica e me especializar em Microbiologia-Clínica, somando um total de seis anos. 

Filho de pessoas humildes, negras, honestas, trabalhadoras e que sempre me educaram sem me dizer que a cor da minha pele seria fator limitante para que eu realizasse meus sonhos. E, por acreditar nessa premissa educacional familiar, sempre me comportei sem ter a preocupação de ter que usar discursos para justificar a cor da minha pele. 

Como negro, frequentei os melhores ambientes do Brasil, compartilhei das melhores companhias do norte ao nordeste, do sul ao sudeste e, não encontrei ninguém que me desqualificasse pela cor da minha pele. Porém, isso não significa que eu nunca tenha sofrido discriminação, pois uma vez que tenha sentido isso, na pele, acredito não ser somente por questão de ser negro, pois o preconceito racial vai muito mais além da questão da cor da pele que uma pessoa possa ter. 

Alguns movimentos que se dizem ou se intitulam em “prol” dos negros de nossa cidade, pouco ou quase nada tem contribuído para a “classe” que ora defendem, pois na sua maioria, os seus membros são pessoas intransigentes, que querem à fina força impor seus “ideais”, sem respeitar a opinião dos outros, sem levar em consideração as ponderações da comunidade. 

Há algo de errado com os movimentos negros no Brasil. Eles parecem que ainda não se libertaram dos grilhões, das senzalas, dos chicotes, dos troncos; pois ainda estão arraigados a resquícios de um passado, e olham para o futuro com estrabismo da rejeição que os mesmos se impõem. 

Ouço rádio, assisto à televisão, acesso a rede, leio jornal, revista... Vejo-os no dia a dia, com os mesmos discursos enfadonhos, enjoativos, retrógados, falácias com a cor do ressentimento que trazem apenas polêmicas, sem qualquer ganho real para os mesmos. 

Lamentavelmente, vejo que alguns dos meus irmãos pretos, quando assumem esse pensamento atrasado sobre a questão racial, assumem uma posição de vítima, coitadinhos e menosprezados, esperando que alguém tenha pena deles. 

Vi na internet uma frase que diz: “Não precisamos de um dia de consciência negra, branca, parda, albina... Precisamos de 365 dias de Consciência Humana!” Perfeita a frase! Sou a favor da consciência humana, da humanização, pois esse sim, é um movimento legítimo que antecede qualquer tipo de movimento político-partidário. 

Esse racismo avassalador que alguns líderes de movimentos negros pregam como um monstro da sociedade, não é maior do que um racismo contra um gordo, um magro, um deficiente, um gay, uma prostituta, um drogado, um cristão, uma mãe solteira, um umbandista e, por fim, o racismo ao pobre miserável, aquele que é sem educação, sem indumentárias decentes e sem dignidade humana. 

Levando em consideração toda a história do negro, da África até o nosso continente, a luta de Zumbi dos Palmares, e até à Princesa Isabel, penso que todas as condições sociais subumanas aqui citadas, também deveriam ter o seu dia de consciência instituído. 

Finalizando, caríssimos leitores, penso que a questão do negro não deixou de ser importante. Pois antes vem a valorização humana, onde a questão do negro está inserida.

Luis Henrique Moura Sousa
(Farmacêutico-Bioquímico)

3 comentários:

  1. Nossa texto perfeito!!!

    Aplaudidíssimo amigo, que suas palavras penetrem nessas mentes sem noção! por uma sociedade HUMANA e não dividida.

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  2. Nota 1000!!! Parabéns, Henrique, por expressar tão bem o pensamento analítico mais pleno, lúcido e realista sobre essa questão.
    Perfeito texto e perfeita reflexão!
    Me orgulho de ser seu amigo e interlocutor constante das várias situações existenciais que nos afligem. Me honra muito contribuir para o blog de alguém tão bem preparado como você. E você muito me ajuda e ensina.
    Abraços!

    Allan Roberto

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  3. Parabéns pelo seu belo e bem escrito texto. O que vale é a consciência do ser humano, independente de sua cor, religião, opção sexual..., o que vale é o que somos como pessoa e como podemos contribuir para uma sociedade mais justa para todos.

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Pedras Verdes, Pedreiras, MA, Brasil.